Mark Lee
John Mclaughlin, artista pioneiro da pintura abstrata, quando perguntado sobre o que tentava realizar em seu trabalho, respondeu da seguinte forma: “devolver mais espaço do
que a pintura tomou da parede”. Pode-se imaginar que essa poderia ser a resposta de Lucia Koch à mesma pergunta sobre seu trabalho. A relação recíproca entre a obra de arte e o espaço ao redor, seja ele imediato ou distante, contingente ou projetivo, sempre foi constante na trajetória da artista. Conhecida pelo uso de elementos arquitetônicos como janelas, cortinas, papel de parede, telas ou outdoors para alterar os ambientes ao redor, suas intervenções sempre foram convites generosos à descoberta, à participação e à interação. Ao lado dos componentes construtivos, a cor é tratada como um espaço a ser habitado ao invés de uma camada a ser aplicada. As gradações de tons e translucidez trabalham em conjunto com padrões e motivos para criar graus variáveis de dimensão espacial.
Em suas fotografias em grande escala, é evidente a extensão virtual da profundidade espacial. Utilizando caixas de papelão, sacos de papel, caixotes de madeira
ou outros recipientes efêmeros de pequena escala
para imitar ambientes em tamanho real, as fotografias imersivas transformam os espaços ao redor projetando a profundidade em perspectiva além da fotografia na galeria. Há uma constante oscilação de escalas entre a imagem e o cômodo, onde as alças da caixa de papelão se assemelham
a janelas, ou um engradado de vinho de cabeça para baixo se torna uma cripta com tetos abobadados. O imediatismo da ampliação dessas peças frágeis e “encontradas” para a escala da arquitetura mais permanente amplifica ainda mais a flutuação entre o recipiente para produtos e os recipientes para seres humanos. Quer sejam instaladas na escala de um papel de parede que engloba toda a visão periférica
do usuário, na escala de uma porta ou penduradas como um friso próximo ao teto, as peças deixam de ser objetos expostos dentro da arquitetura e se tornam parte dela.
A preocupação de Koch com o espaço se estende ao seu mais recente corpo de trabalho escultórico, no qual os objetos assumem dimensões e atributos antropomórficos latentes. Enquanto suas instalações e trabalhos fotográficos colocam o espectador no papel de um habitante dentro de um ambiente, suas esculturas figurativas tornam-se elas próprias personagens, oscilando entre ator e objeto de cena em um palco. Incorporando artefatos e mecanismos para projeções, essas esculturas ocupam ativamente um terreno entre o primeiro e o segundo plano. À medida que o meio e a linguagem de seu trabalho continuam a se expandir, Koch tem sido consistente em dar voz a esse espaço entre o físico e o virtual, entre a sala e o espectador. E a generosidade por trás desse engajamento constante, exploração e jogo desse espaço intermediário é evidente no trabalho que sempre devolve mais ao espaço do que toma.
2025
Texto da exposição People and Natural Numbers, na Galeria Nara Roesler, Nova York, Estados Unidos, 2025