Francesco Perrotta-Bosch
Nos mais improváveis objetos, Lucia Koch encontra (e reafirma) o argumento de autoridade da arquitetura.
Tais “improváveis objetos” são lixo. E assim seguirão sendo mesmo que se desejasse camuflá-los sob elegantes adjetivos da crítica de arte. As matérias-primas para as fotografias de Koch cumpriram seus ciclos de uso dentro de seus propósitos originais – isto é, serem recipientes de alguma mercadoria. Uma vez que todo conteúdo foi consumido, a condenação de cada embalagem parece uma certeza, sobretudo sendo objeto produzido no medíocre século 21, no qual a delicadeza das coisas é constantemente confundida com a debilidade. Nos dias atuais, todo item é descartável. Todo artefato é quebrantável. Tudo está sob o risco de esmaecer com a inevitável entropia dos dias.
Na suprema banalidade das caixas, Lucia Koch revela uma inesperada espacialidade arquitetônica. Volumes pequenos proporcionam fotos de ambientes internos que aparentam ser amplos, solenes, belos. Como algo de valor assim insignificante permite tão admirável imagem? O trabalho tem algo de enigma. De ilusório. De fantasioso.
Existiu um tempo em que o empírico e o científico se solidarizavam em prol da criação de engenhosos mecanismos com desígnios que contrariavam os limites do possível: por exemplo, Leonardo da Vinci (1452–1519) imaginou algumas Máquinas de Voar, Agostino Ramelli (1531–1608) delineou uma Máquina de Ler e um Órgão Musical com Flores e Pássaros, Athanasius Kircher (1602–1680) fabulou uma Máquina de Metamorfoses. Em tais casos, a técnica não era servil ao racionalismo, o que abria caminho para saudáveis associações com o fascínio e a quimera.
Lucia Koch é artista com uma mentalidade renascentista quando trafega desembaraçadamente entre diversos campos do conhecimento. A fantasia engendrada por Koch provém da apropriação do método criado há seis séculos por Filippo Brunelleschi (1377–1446).
O florentino concebeu a construção geométrica capaz de representar objetos tridimensionais em planos bidimensionais: aquilo que permite a interioridade da embalagem de Lasagna converter-se numa representação visual com perspectiva de ponto de fuga único, o qual centraliza e organiza todo o campo pictórico seguindo uma métrica rigorosa e universal. Por sua vez, tudo dentro da caixa Sans Gluten segue uma codificação óptica e matemática, na qual o objeto revela seu volume por meio da ampliação ou redução em escala de acordo com a distância.
Poderíamos considerar esta verossimilhança imagética como uma descoberta de Brunelleschi, porém trata-se de invenção de um modelo cultural. Afinal, não há um só método correto para fornecer um registro gráfico análogo ao modo como nós vemos o mundo. A bem da verdade, a perspectiva de ponto de fuga único contém um alto grau de abstração ao assumir um ponto de vista fixo e desconsiderar parâmetros naturais como a convexidade do bulbo ocular humano. No entanto, o conforto do hábito de seis centenas de anos com esse paradigma óptico faz com que vejamos a fotografia de Lucia Koch do interior do pacote de Arroz Jasmim como um retrato clicado na posição ideal – a perfeição possível dentro daquela volumetria.
Outro princípio brunelleschiano é a constante procura pela harmonia por meio do uso de formas geométricas tão simples como a parte interna do Spaghetti Iená, da modulação como na caixa para armazenar garrafinhas de Kombucha, da simetria como em Silver, da repetitividade própria a essência das relações matemáticas que se constata no conjunto desta mostra. Aqui a matemática é a intermediária entre a arte, a técnica e a teoria.
Ao sustentar a liberdade da criação artística com os alicerces de uma sistematização geométrico-matemática, Brunelleschi permitiu que nós, seres humanos, passemos a ter pleno controle gráfico de todo e qualquer espaço no mundo. Com tais normas para a elaboração de imagens, o florentino ofertou-nos as bases da concepção moderna de arquitetura. Desde então, arquitetos habilitaram-se a antever graficamente como seria um objeto tridimensional, com a precisão adequada a comprovar a validade física para a execução daquela ideia. Um pequeno desenho seria capaz de representar algo tão grandioso como a cúpula de Santa Maria del Fiore, em Florença, antes mesmo dela ser construída. Eis a invenção do projeto. Eis o argumento de autoridade da arquitetura.
Lucia Koch encontra (e reafirma) este argumento de autoridade quando nos oferece uma volta aos princípios básicos da disciplina.
Na bidimensionalidade das fotos, a artista lança mão desses instrumentos de representação espacial, porém com uma inversão: ela apresenta algo tão pequeno como uma embalagem para mantimentos num tamanho maior que o corpo humano em sua totalidade, isto é, em uma escala de pé-direito residencial. Portanto, não é a conversão de ideia mental em edificação, como faz o projetista, mas é a conversão do objeto banal em Arquitetura.
Na tridimensionalidade dos espaços da galeria, Koch expande os ambientes internos com seus trabalhos. Spaghetti Iená estende o corredor de fundos: a linha de encontro do piso com a parede alinha-se com a linha de junção dos planos da embalagem; ambas coincidindo em direção ao ponto de fuga. Ou seja, com a imagem do pacote de macarrão, ampliou-se o ambiente estreito e aperfeiçoou sua perspectivação. Tal como nos afrescos ilusórios de Paolo Veronese nas paredes internas da Villa Barbaro de Andrea Palladio, as fotos de Lucia Koch constituem portais para um espaço não-imanente. Os limites físicos do lugar são desafiados pela artista: quando adentramos pela porta da rua Redentor, Sans Gluten e Kombucha nos permitem enxergar para além das divisas daquele lote de Ipanema. Uma pequena casa que se irradia no revezamento da arquitetura construída com a arquitetura em projeção.
2023
Texto para a exposição Córte, na Galeria Nara Roesler, Rio de Janeiro, RJ, Brasil